A Corda Filmes
Um grupo de jovens moçambicano,amantes do teatro e cinema, decidiu unir-se para criar alguns filmes.
No dia 26 de agosto de 2026, tivemos a oportunidade de exibir A CORDA, na Sala Magna da ECA – Universidade Eduardo Mondlane, numa iniciativa da Faculdade de Educação, Departamento de Psicologia, com apoio da Unesco Mozambique.
A sessão foi seguida de um debate intenso e necessário, onde se discutiu o papel do cinema como Instrumento de consciência social e de diálogo sobre temas como assédio, violência sexual, física e psicológica.
O escritor Negro, partilhou connosco uma reflexão profunda sobre o impacto do filme e sobre os silêncios que muitas vezes escondem dores difíceis de nomear.
A seguir, partilhamos integralmente o texto escrito por ele.
" A CORDA
Assisti a A Corda, de Hélder Bata, e a primeira coisa que me prendeu foi a proximidade dos lugares.
Não precisei imaginar muito. Conheço aquelas ruas, aquelas casas e aquele ambiente dos nossos bairros suburbanos onde as pessoas se cruzam, cumprimentam-se, conhecem os filhos umas das outras e seguem a vida sem saber exactamente o que acontece quando a porta do vizinho se fecha.
Vasquinho podia morar num desses bairros, podia ser nosso vizinho, nosso colega ou alguém que encontramos todos os dias sem prestar grande atenção. O filme ganha força nessa proximidade, porque não nos permite colocar o problema longe e descansar com a ideia de que aquilo pertence à vida dos outros.
Vasquinho perdeu os pais num acidente de viação e foi viver com os tios. Chega àquela casa já com uma ausência difícil de suportar e encontra uma tia ocupada com longas jornadas de trabalho, muitas vezes por turnos, e um tio que pouco se preocupa com as responsabilidades da casa. Era a família que lhe restava e, numa situação normal, seria também o lugar onde aquele jovem devia encontrar alguma segurança depois de perder os pais. Acontece o contrário. O homem que devia ajudar a protegê-lo aproveita-se da sua fragilidade e da ausência da mulher para abusar sexualmente dele. A casa que o recebe deixa, assim, de ser apenas abrigo e passa também a ser o lugar onde ele tem medo.
Durante o filme, o tio lembra várias vezes a Vasquinho que eles são a sua única família. Essa frase é forte porque nós damos muito valor à família e não vejo nada de errado nisso. Pelo contrário.
Crescemos a saber que família é pertença, abrigo, respeito e aquele lugar para onde uma pessoa deve poder voltar quando a vida aperta. Também temos muito presente a ideia de respeitar os mais velhos e de não andar a espalhar os problemas de casa.
O problema começa quando essas mesmas coisas são usadas para obrigar alguém a suportar o que não devia suportar. Vasquinho já tinha perdido os pais; perder aquela casa signif**ava f**ar com quem e ir para onde? O tio sabia disso. Quando lhe dizia que eles eram a sua única família, não estava apenas a lembrar-lhe de quem eram os seus parentes.
Estava também a lembrar-lhe que dependia deles. Às vezes, a mesma família que segura uma pessoa pode ser aquela que não a deixa sair.
O silêncio de Vasquinho foi, para mim, uma das partes mais pesadas do enredo. Enquanto assistimos, dá vontade de lhe dizer para falar, contar à tia, procurar Cecy ou encontrar alguém em quem confie. Eu próprio senti isso. Só que nós estamos do outro lado e sabemos exactamente o que se passa porque vimos.
Para Vasquinho, era preciso pegar no medo, na vergonha e na confusão e transformar tudo numa frase que não deve ser fácil para rapaz nenhum pronunciar: o marido da minha tia abusa sexualmente de mim. Depois de conseguir dizer isso, ainda teria de esperar pela reacção de quem o estivesse a ouvir.
E sendo Vasquinho um rapaz, existe um peso que não podemos ignorar. Nós, homens, temos uma educação estranha para a dor. Desde pequenos aprendemos a aguentar.
Se o rapaz chora muito, começam as chamadas de atenção; se tem medo, precisa ganhar coragem; se cai, levanta; se sofre por amor, os amigos lembram-lhe que existem muitas mulheres. Vamos crescendo assim e um dia descobrimos que há dores que não se resolvem com coragem, futebol, trabalho, bebida ou outra mulher.
Nessa altura, precisamos falar, mas passámos boa parte da vida a aprender exactamente o contrário. Há homens capazes de contar aos amigos com quantas mulheres dormiram, quanto dinheiro fizeram ou perderam e todas as aventuras de uma noite, mas que atravessam anos de amizade sem conseguir dizer ao mesmo amigo que têm medo ou que alguma coisa os está a destruir por dentro.
Com o abuso sexual a situação torna-se ainda mais difícil.
Imagino Vasquinho a contar aos amigos e consigo imaginar algumas perguntas: “Mas como deixaste isso acontecer?”, “Não reagiste?”, “Não conseguiste lutar?”. São perguntas que parecem querer compreender o que aconteceu, mas acabam por obrigar a vítima a explicar por que não conseguiu evitar o crime.
Ser homem não torna ninguém imune ao abuso e ser abusado não retira masculinidade a ninguém. Se queremos que os homens falem, também precisamos rever a maneira como reagimos quando um deles aparece diante de nós sem força, sem resposta e sem aquela imagem de homem que consegue resolver tudo sozinho.
Cecy não sabia nada do que se passava. Gostava de Vasquinho, percebeu que ele começava a afastar-se e tentou compreender a mudança com os elementos que tinha. Podia pensar que ele já não gostava dela, que havia outra pessoa ou que simplesmente tinha perdido o interesse. Não lhe podemos cobrar aquilo que só nós, espectadores, vimos.
Ainda assim, a relação dos dois fez-me pensar em quantas vezes alguém muda ao nosso lado e nós interpretamos essa mudança apenas em função de nós próprios. Se a pessoa se afasta, sentimos rejeição; se deixa de procurar intimidade, pensamos em desinteresse ou traição; se responde menos, f**amos ofendidos. Nem todo afastamento signif**a falta de amor e nem todo silêncio signif**a indiferença. Há pessoas ocupadas a lutar com problemas que nós desconhecemos.
Também não colocaria sobre Cecy a obrigação de descobrir o que Vasquinho escondia, muito menos sobre a tia a culpa pelo crime cometido pelo marido. O culpado pelo abuso é quem abusou. A tia trabalhava, fazia os seus turnos e confiava no homem com quem dividia a casa. O que estas duas personagens nos mostram é uma realidade simples e dura: podemos estar muito perto de alguém e saber muito pouco sobre aquilo que essa pessoa vive.
Podemos dormir na mesma casa, namorar, ser amigos, estudar juntos e continuar sem conhecer determinadas dores. Ao mesmo tempo, não podemos exigir que quem nos ama descubra tudo aquilo que não conseguimos dizer. Prestar atenção ao outro é importante, mas aprender a pedir ajuda também faz parte das relações que construímos.
Quando finalmente aparece a corda, Vasquinho já vinha perdendo muita coisa. Primeiro os pais, depois a segurança da casa onde foi acolhido, o domínio sobre o próprio corpo, a tranquilidade para viver a relação com Cecy e, por fim, a capacidade de suportar sozinho aquilo que lhe acontecia. Não pretendo explicar o suicídio dele através de uma soma simples de acontecimentos, porque uma vida humana não cabe numa conta dessas.
O que o filme nos permite ver é um jovem a carregar cada vez mais peso sem que as pessoas à sua volta conheçam a história inteira. A corda aparece no fim, mas encontra Vasquinho já sufocado por uma realidade que vinha apertando há algum tempo.
Encontro aí uma das maiores forças de A Corda. Hélder Bata dá-nos, como espectadores, uma vantagem que nenhuma das personagens teve: deixa-nos ver o que estava escondido. A tia não viu, Cecy não viu, mas nós vimos. Entrámos naquele quarto e conhecemos o segredo de Vasquinho.
Fora do cinema ninguém nos oferece esse privilégio. Encontramos as pessoas no bairro, na faculdade, no trabalho, no chapa, em casa, na igreja ou na mesquita e conhecemos a parte delas que chega até nós. Rimos juntos, conversamos, perguntamos se está tudo bem e seguimos a nossa vida. Podemos conhecer alguém durante anos e continuar sem saber aquilo que essa pessoa enfrenta quando f**a sozinha.
Saí de A Corda sem vontade de condenar o silêncio de Vasquinho. Fiquei mais preocupado com aquilo que nós fazemos quando alguém quebra o silêncio. É muito comum dizer que os homens precisam falar mais, procurar ajuda e mostrar o que sentem, e eu concordo. Só que isso também exige de nós capacidade para ouvir homens que não chegam fortes, que não têm solução, que têm medo, que foram feridos e que, por algum momento, não sabem o que fazer.
Não sabemos quantos Vasquinhos passam por nós e seria pretensioso imaginar que conseguiremos reconhecê-los todos. O filme mostra-nos aquilo que a vida normalmente esconde, e é justamente por isso que nos deixa uma responsabilidade depois de terminar
A pergunta que já não é apenas por que Vasquinho não falou. Interessa-me também saber o que encontraria se tivesse falado. Porque o silêncio não existe somente da falta de palavras; pode nascer do medo daquilo que virá depois delas. E, se algum dia alguém próximo de mim encontrar coragem para contar uma dor que guardou durante muito tempo, espero que a minha maneira de ouvir não lhe dê mais uma razão para desejar ter continuado calado.
Negro
Nkobe, Agosto de 2026 "
29/08/2026
Saudações Cinematográf**as
Não perca neste Domingo a Estreia Exclusiva do Filme Nascer de Novo no Cinema Novo Cine pelas 17:30. Uma sessão inesquecível que será antecedida de uma curta-metragem intitulada Flashback ambas obras 100% moçambicanas, dirigidas por Bless Ngonhama
Uma super produção da BNS Films
Detalhes do Evento
Local: Novo Cine
Data: 30 de Agosto 2026
Horas: 17:30
*Bilhetes:* Adultos - 500Mt, Crianças - 200
Contactos: 861168578/ 861695227
Venha experimentar uma noite de Cinema inesquecível
28/08/2026
Cinema, conversa e reflexão na UEM!
No próximo 26 de Agosto, às 10h00, a Faculdade de Educação da Universidade Eduardo Mondlane recebe a exibição do filme moçambicano “A Corda” (2023), escrito por Bata.
Mais do que assistir a um filme, este será um momento para conversar, questionar, partilhar perspectivas e reflectir em conjunto sobre as histórias e temas levantados pela obra. Após a exibição, teremos uma roda de conversa moderada pelo escritor Negro criando um espaço aberto de diálogo com os participantes.
📅 26 de Agosto
⏰ 10h00
📍 Sala Magna da ECA – UEM
🎟️ Entrada gratuita
A actividade conta com o apoio da UNESCO e do Movimento PU CHA, reforçando a importância de criar espaços onde estudantes possam falar, ouvir e construir novas perspectivas através da cultura e do diálogo.
Porque uma conversa também pode transformar a forma como vemos o mundo.
Venha assistir, conversar e fazer parte deste momento!
28/08/2026
A exibição do filme A CORDA realizada na Universidade Eduardo Mondlane, fruto da iniciativa da Faculdade de Educação, Departamento de Psicologia, com apoio da UNESCO , foi seguida de um debate profundo e participativo.
Tivemos a honra de contar com a presença de membros da UNESCO, como Denise Ivone, que reforçaram a importância de espaços de reflexão como este.
O filme A CORDA mostrou o seu potencial não apenas como obra artística, mas também como ferramenta de diálogo sobre temas importantes: assédio, violência sexual, física e psicológica. Questões que atravessam comunidades e que precisam ser debatidas de forma aberta e sem tabús.
Foi um encontro de cinema, educação e consciência social, que reafirma o poder da arte em provocar mudanças, moderado pelo escritor Negro.
28/08/2026
24/08/2026
No próximo 26 de agosto, às 10h00, teremos a exibição do filme A CORDA na Sala Magna da ECA, Universidade Eduardo Mondlane, realizada no contexto de um convite especial da faculdade de Psicologia da UEM.
Será um momento de reflexão com direito a uma roda de conversa com o elenco e parte da equipe técnica do filme, moderada pelo escritor Negro.
O Evento é gratuito e todos estão convidados a participar.
A sua presença faz a diferença!
4ª feira, pelas 10h na UEM
22/08/2026
As inscrições para o Festival de Cinema de Rua – A CORDA já estão encerradas!
Recebemos candidaturas de Portugal, Brasil, Marrocos, Moçambique e Espanha, o que mostra a força e o alcance desta iniciativa.
Em breve anunciaremos os filmes selecionados que irão compor a programação da 2ª edição do festival.
Muito obrigado a todos os que submeteram as suas obras e acreditam no poder do cinema comunitário.
15/08/2026
Hoje é o último dia!
As inscrições para a 2ª edição do Festival de Cinema de Rua – A CORDA encerram hoje, 15 de agosto de 2026.
Se tens um filme, esta é a tua última oportunidade de o submeter e fazer parte desta festa do cinema comunitário nos bairros de Mavalane e Maxaquene.
Inscreve-te já através do link: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdHl05aziVsrSiNWAnCli5vEhB1nhS-bwTAj3xQqLq9pnUrCA/viewform
O regulamento completo pode ser consultado diretamente no link de inscrição.
Para qualquer dúvida, escreve-nos para [email protected] ou via WhatsApp: +351 929 091 207.
10/08/2026
Faltam apenas 5 dias!
As inscrições para o Festival de Cinema de Rua – A CORDA encerram no dia 15 de agosto de 2026.
Se tens um filme, esta é a tua oportunidade de o partilhar num espaço que valoriza histórias autênticas e aproxima o cinema das pessoas, nos bairros de Mavalane e Maxaquene.
Inscrições através do link: https://forms.gle/egQp8VfNygSFz6fx7
O regulamento completo pode ser consultado diretamente no link de inscrição.
Para qualquer dúvida mande um email para - [email protected] ou via WhatsApp: +351 929 091 207
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